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JORNAL DE BRASÍLIA

POLÍCIA - Combate intenso aos roubos

Apesar do aumento da frota, menos veículos são levados pelos ladrões

O aprimoramento das provas, a qualidade dos inquéritos policiais e os equipamentos recém-criados pelas montadoras de carros para dificultar cada vez mais a ação de ladrões causou a redução dos índices de carros roubados (com emprego de violência) e furtados (sem uso de violência) no Distrito Federal, se comparados os índices de novembro de 2007 com o mesmo período de 2006. E isso tudo apesar do aumento da frota de veículos na região, segundo estatísticas da Delegacia de Roubos e Furtos de Veículos (DRFV). Os números de dezembro de 2007 ainda não foram fechados pela delegacia.

Em novembro passado, por exemplo, 691 veículos foram subtraídos de seus proprietários. Foram 563 carros furtados e 128 roubados, com média de 23,03 carros levados por dia pelos ladrões. Quase um por hora. Do total, 471 veículos (68,16%), foram recuperados pelos policiais. Alguns carros estavam parcialmente depenados e outros totalmente sem equipamentos.

Dados do Departamento de Trânsito (Detran) revelam que em novembro de 2006 o Distrito Federal tinha uma frota de 876.154 veículos. Naquele mês, a DRFV contabilizou 809 carros subtraídos de seus proprietários. Desse montante, 676 veículos foram furtados e 133 roubados. O número representa uma média de 26,97 carros roubados e furtados por dia.

No ano passado, devido às facilidades para se comprar um carro, com a redução dos juros e a dilatação do prazo para o consumidor efetuar o pagamento, houve um aumento da frota. Estatísticas feitas pelo Detran até o dia 27 de dezembro passado, comprovam que 964.121 mil carros circulam pelas ruas do Distrito Federal. Houve, portanto, um aumento na frota de 96.967 mil veículos em 2007 comparado com 2006.

Segundo o delegado Manoel Ferraz, titular da DRFV, apesar do aumento da frota em 2007, a polícia reduziu o número de roubos e furtos em 118 veículos, se comparado ao mês de novembro de 2006. Na opinião do delegado, os bandidos andaram na contramão dos números. "O crime deixou de se sustentar na impunidade", explica Ferraz.

O delegado atribui a redução de furtos e roubos de veículos, principalmente, a uma maior apuração dos crimes nos inquéritos da DRFV e que resultam em condenações. Ele cita, por exemplo, que a delegacia tem buscado coletar o máximo de provas possíveis porque se o ladrão estiver em liberdade vai intensificar o roubo para buscar recursos e pagar seu advogado.

Experiência
Com experiência na Polícia Civil, Ferraz afirma que vem empregando na DRFV a metodologia usada por dez anos na Delegacia de Repressão a Seqüestro (DRS), onde atuou como delegado-chefe até o início deste ano, quando todos os casos de seqüestro e extorsão acabaram com prisão e condenação dos suspeitos, por causa das provas legais inseridas nos inquéritos. "A confissão é a mais frágil das provas porque, muitas vezes, os acusados acabam dizendo ao juiz que foram torturados e desqualificam todo o trabalho da polícia", afirma.

Ele justifica que, com apuração rápida e eficiente, desaparece a figura da impunidade. Segundo ele, quando a vítima é chamada imediatamente para reconhecimento, lembra dos fatos referentes ao crime. Ele diz que, com a agilidade dos casos, pretende reduzir ainda mais o número de veículos furtados e roubados este ano.

Vítima perde carro em 45 dias

A agente de proteção Fabiane Bandeira dos Santos, 27 anos, também virou estatística na atuação dos ladrões de carros. Ela comprou um Fiat Uno placa JFO-3527 (DF), em outubro passado. Quarenta e cinco dias depois, no dia 26 de novembro, o carro foi furtado, no estacionamento onde ela mora, na Quadra 105 do Cruzeiro Novo. O veículo ainda não foi localizado. O Cruzeiro, assim como os setores Comercial Sul e Norte, setores Hospitalar Sul e Norte, SIA e Plano Piloto, onde há maior concentração de veículos, são as áreas preferidas pelos ladrões. Em novembro, 27 carros foram subtraídos no Cruzeiro. O Uno de Fabiane está incluído nessa triste estatística.

A agente de proteção conta que ainda não se recuperou emocionalmente do furto. Ela lembra, com tristeza, ter estacionado o carro embaixo do prédio. Por volta de meia-noite olhou pela janela e viu o veículo no local. No dia seguinte, ela deu por conta do sumiço logo que desceu para ir ao trabalho, chegando no estacionamento. "Foi uma sensação estranha, de vazio e impotência", recorda.

O carro não tinha seguro e Fabiane ficou com o prejuízo de R$ 8,5 mil. Todos os dias ela telefona para o número 190 da Polícia Militar e pergunta sobre os veículos localizados pela corporação, na esperança de recuperar o carro. O porta-chaveiro, localizado ao lado da porta do apartamento, serve como recordação. Para que os olhos não encham de lágrimas, ela resolveu guardar as chaves do carro na gaveta. "É para que eu não veja e não fique ainda mais triste", lamenta Fabiane.

Segundos dados da DRFV, da média de 23,61 carros subtraídos diariamente no DF, 81,48% são furtados e 18,52% são roubados. Isso significa dizer que a cada veículo levado pelos ladrões, quatro são furtados e um é roubado.

Esta relação está na pena aplicada ao criminoso. Quem furta pode pegar uma pena de quatro anos de prisão e quem rouba o veículo pode ser condenado a dez anos. Além disso, a polícia tem muitos mais dificuldades em obter provas no furto do que no roubo.

Gol e Uno lideram

Os carros dos modelos Gol (Volkswagen) e Uno (Fiat) são os preferidos entre os ladrões da região. A preferência é explicada pela facilidade da venda desses veículos e de seus componentes ou acessórios, aliadas à simplicidade dos furtos. As montadoras buscam dificultar a ação dos bandidos com a inserção de chaves codificadas, bloqueio de acionamento do motor e outros equipamentos antifurto.

Mesmo assim, os ladrões têm se especializado e buscado novos mecanismos. Um carro importado, por exemplo, pertencente a um juiz, foi furtado no SIA. O magistrado parou o veículo e foi a uma agência bancária. Quando voltou o carro não estava mais no estacionamento. Dias depois, a polícia localizou o veículo em Luziânia, no Entorno do DF, parcialmente depenado. Como o ladrão praticou o furto ainda é uma incógnita para a polícia. O esquema só será realmente descoberto quando o suspeito for preso.

O estado de Goiás é o destino da maioria dos carros furtados ou roubados no DF. A preferência é a própria situação geográfica do estado com a capital do País. Muitos desses veículos acabam parando em Tocantins, Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo e alguns estados no Nordeste.

A falta de acesso da polícia ao cadastro nacional é a principal garantia dos ladrões ao atuar nesses estados. "Recebemos, diariamente, ligações de cidades do interior sobre dados de carros suspeitos por falta de equipamentos adequados para a vistoria", diz Ferraz.

Ricos e pobres no esquema

Ninguém escapa. O perfil das pessoas envolvidas com o roubo, furto e receptação de veículos preenche todas as classes sociais. Na receptação, por exemplo, a polícia sabe que muitos carros de luxo que circulam com moradores do Plano Piloto, Lago Sul e Lago Norte são de procedência duvidosa. A falta de fiscalização adequada facilita a ação. "Às vezes são carros que, à primeira vista, estão acima de qualquer suspeita, mas são dublês (clonados)", diz Manoel Ferraz, titular da DRFV.

Os receptadores compram Mercedes, Audi, Corolla, Ranger, BMW, Cherokee e Pajero por R$ 6 mil. Rodam com o carro por dois anos ou até serem pegos numa blitz. A maioria dos veículos vem de outros estados ou são comprados de pessoas que financiaram e pagaram só a entrada. O esquema é considerado crime de estelionato.

A polícia identificou poucas quadrilhas que atuam em subtração de veículos. Os ladrões, em sua maioria, são autônomos. Os criminosos são considerados, pelos receptadores, como pobres operários que "trabalham" para sustentar o esquema, na operação de subtração, desmanche, comercialização, remarcação e transporte dos veículos de outros estados para o DF e vice-versa.

De acordo com Ferraz, a fiscalização que aborda o motorista deveria confrontar os dados do Certificado de Registro e Licenciamento de Veículo (CRLV) com os existentes no banco de dados do Detran e Renavan, como vem sendo utilizado pela Polícia Rodoviária Federal (PRF). "Placa, livro e etiquetas do sistema identificador na porta e na coluna do veículo são fundamentais para detectar fraudes", diz Ferraz.

Luís Augusto Gomes.